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BEM ESTAR GLOBAL

Hoje meu foco será diferente. Tive vontade de compartilhar com vocês uma experiência prá lá de gratificante que tive no último dia 01 de setembro, quando a comitiva do Bem Estar Global fincou pé na nossa terra de pés vermelhos: Londrina.

Trata-se de um projeto itinerante que resulta da parceria do Sesi com a Rede Globo que acontece em várias cidades do país com o objetivo de levar informação à população sobre saúde. São vários serviços, todos grátis, direcionados à população geral. Cada tenda comporta uma especialidade de profissionais da área da saúde e oferecem serviços desde alguns exames rápidos, pequenos procedimentos e informação. Tudo isso entremeado com atividades musicais, dança e boas práticas que orientam as pessoas sobre o bem viver, o viver com saúde física e mental.

O tema determinado para a nossa Tenda da Alergia foi Alergia Alimentar e nossa equipe tinha função informativa. Desenvolvemos atividades teórico práticas para que essas informações se tornassem dinâmicas, claras e, porque não, divertidas.

Me inspirei nas perguntas “campeãs de audiência”, pois muito provavelmente estas também sejam dúvidas pertinentes a vocês.

– Sou alérgico a camarão. Se eu tomar um anti alérgico antes de comer camarão, eu evito ter reação?

Pois é, infelizmente não. Esse é um dos grandes mitos sobre a prevenção de reações alérgicas graves. Nenhuma medicação de uso prévio pode prevenir reações graves e até mesmo potencialmente fatais. E quando falamos em alergia  a camarão, o problema é ainda mais sério, pois esse alérgeno é altamente potente que, mesmo que seja apenas inalado, tem a capacidade de desencadear reações graves. Cuidado! Alergia a camarão não é brincadeira! Isso vale também para alergia a qualquer alimento.

– Existe medicação ou vacina para Doença Celíaca (Intolerância ao glúten)?

Mais uma vez, infelizmente não. A Doença celíaca deve ser diagnosticada através de exames de sangue e Endoscopia digestiva alta com biópsias e trata-se de doença genética muito freqüente  entre os descendentes de países mediterrâneos, que tem como tratamento única e exclusivamente a dieta sem glúten, uma proteína presente no trigo, mas que está presente em outros grãos como centeio, cevada e aveia (esta última por contaminação nos silos de armazenamento).

A Doença Celíaca pode ser diagnosticada quer seja na infância quanto na idade adulta e tem uma variedade de sintomas que levam à sua investigação. Doença celíaca é para sempre. A dieta deverá ser seguida durante toda a vida.

Infelizmente modismos estão disseminando a orientação de que pessoas são “intolerantes ao glúten não celíacas” e necessitam de dieta isenta do mesmo para perder peso ou até mesmo melhorar alguns sintomas subjetivos.  O que acontece é que a dieta sem glúten diminui o valor calórico ingerido e por isso as pessoas emagrecem. Mas isso não tem nada a ver com intolerâncias, e sim com redução de ingestão calórica. A dita “intolerância ao glúten não celíaca” não encontra respaldos científicos sérios em metanálises ou revistas científicas consideradas fidedignas. Cuidado!

– Quais são as diferenças entre : * leite de vaca e fórmula, bebida de soja e fórmula, leite de arroz e fórmula de arroz e os “leites de castanhas, linhaça, amêndoas…”?

Vale ressaltar que nenhum alimento é mais perfeito e completo para nossos lactentes que o leite materno, entretanto situações em que o mesmo é insuficiente ou inexistente, podem ocorrer. O que fazer nessas situações, afinal temos que alimentar essa criança. Existem várias fórmulas específicas para a nutrição e desenvolvimento dessas crianças.

As fórmulas, quer seja a base de leite de vaca ou de soja, são obrigatoriamente (através de legislação internacional) compostas de proporções específicas de proteínas, oligoelementos, açúcares e gorduras para que se “assemelhem o máximo possível ao leite materno” e com isso compensem a sua falta do ponto de vista nutricional e neuroendócrino para o adequado desenvolvimento desta criança. Essas determinações são baseadas em estudos enormes, multicêntricos, com seguimento durante anos, e que analisam não só o crescimento a curto prazo, mas também a longo prazo, incluindo prevenção de doenças como obesidade, hipertensão arterial e diabetes mellitus tipo II. O Estudo dos primeiros mil dias de vida têm sido citado e seguido pelos Pediatras mais atualizados.

O leite de vaca quer seja “da fazenda”, “de saquinho”, “de caixinha”, não contempla essas modificações e geram desde sintomas gastro intestinais a déficits mais importantes na nutrição infantil.

Quando falamos de soja, temos também que diferenciar entre “extrato de soja” (ditos leites de soja de casas de produtos naturais), sucos de soja (aqueles de marcas famosas que encontramos em embalagens tetrapack nos supermercados) e fórmulas de soja. Essas últimas vêm em lata como as fórmulas a base de leite de vaca. A explicação é exatamente a mesma que fiz acima para o leite de vaca com a atenção de que deve usar fórmula de soja somente a criança acima de 6 meses de idade de acordo com a OMS (Organização mundial de saúde) e que tenha APLV (alergia à proteína do leite de vaca) mediada por IgE. Quanto a receios em usar fórmulas a base de soja e estimulação do desenvolvimento de puberdade precoce em crianças, devemos recordar que alguns resultados a este nível foram encontrados em estudos preliminares em ratos e na raça humana nada foi observado. Mais mito que ciência. Mais “cultura de mídia” que cientificismo.

Já quando me refiro a leites de arroz, castanhas, amêndoas, linhaça… etc e tal, devemos considerar que trata-se apenas de “sucos dessas oleaginosas diluídas em água”, concluindo portanto que as determinações da OMS são impossíveis de ser atendidas com estes preparados caseiros quando falamos em nutrição infantil ideal.

Veja bem, vamos considerar que temos um bebê com menos de 12 meses que foi diagnosticado com APLV (alergia à proteína do leite de vaca) e que sua mãe não tem leite materno suficiente ou nem mesmo o tem para nutri-lo. Aqui encontramos várias fórmulas específicas para a nutrição e desenvolvimento dessas crianças. Desde fórmulas extensamente hidrolisadas de proteínas do soro ou da caseína, extensamente hidrolisadas de arroz, fórmulas a base de soja e as fórmulas a base de aminoácidos. Mas isso deve ser indicado caso a caso.

– Existe correlação entre Autismo e Alergia Alimentar?

O TEA (transtorno de aspecto autista) é composto por um grupo de condições heterogêneas que afetam o desenvolvimento neurológico. A patogênese não é completamente conhecida, admitindo-se que haja uma combinação entre diversos genes, assim como fatores epigenéticos/fatores ambientais interferindo em sua expressão. Muitos estudos sobre a relevância do eixo microbiota-intestino-cérebro na fisiopatogenia dos TEA têm sido realizados, assim como a interferência da alimentação no funcionamento desse eixo. Alguns estudos citam elevadas prevalências de alergia neste grupo de pacientes, inclusive alergias alimentares, entretanto quando fazemos revisões aprofundadas e metanálise (síntese de todos os estudos que existem na área), NÃO se confirma correlação direta entre TEA e alergia alimentar.

Vale sempre recordar que o paciente com TEA por si só apresenta distúrbios alimentares como seletividade, distúrbio de deglutição, constipação, diarréia. distensão abdominal, sem que sejam sintomas decorrentes de alergia alimentar. Certamente processos alérgicos quer seja relacionados a alimentos ou não podem acometer esses pacientes do mesmo modo que na população geral, mas a correlação direta entre TEA e Alergia alimentar ainda não tem respaldo científico.

Diante de uma condição clínica com espectro clínico variado, causas não completamente conhecidas e sem tratamento efetivo ou curativo, é fácil compreender a busca, muitas vezes por terapêuticas alternativas. Entretanto é fundamental estar atento ao surgimento de propostas terapêuticas, procurando evitar medidas que não sejam comprovadamente eficazes e que possam ser prejudiciais aos pacientes a médio e longo prazos.

Foi uma experiência memorável. Reiterei  minhas convicções de que informação e atenção são mais importantes que remédio e é disso que nós humanos carecemos.

Informar faz parte da atividade diária de quem trabalha com pessoas. Pessoas estas que têm suas dúvidas, suas angústias e que palavras têm o poder de direcioná-las para a seu diagnóstico e tratamento adequados. Quem trabalha com gente tem que gostar de gente.Quase pleonástica essa minha frase mas tão real. Se não é essa a sua praia, sem problemas, mude de contexto. Ouvir é um ato de cura. Explicar e orientar adequadamente é fazer a diferença perante os seus pares.

 

Ana Paula Juliani

Sobre Ana Paula Juliani

CRM 13736 – PR
Especialista em Alergia e Imunologica clínica pela ASBAI (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia)
Pediatra pela SBP ( Sociedade Brasileira de Pediatria)
Especialização em Alergia Alimentar na Universidade “La Sapienza”- Roma.
Membro do Comitê de Alergia Alimentar da ASBAI de 2013 a 2017.
Londrina - PR.

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