Arquitetando Estilos

Como me tornei uma tatuadora

Você já se perguntou como uma pessoa entra no mundo da tatuagem? No post de hoje vou contar um pouco da minha trajetória e do que eu enfrentei pra chegar onde cheguei, como me tornei uma tatuadora. Claro, o meu caminho ainda é longo, então espero conseguir ajudar com o pouquinho que vou contar pra vocês por aqui.

Sonho de infância 

Quando a gente é criança pensa em fazer mil coisas na vida adulta, não é?! O meu sonho era ser arquiteta. O engraçado é que eu não tive referências de pessoas próximas na área. Eu gostava muito de desenhar (desde que me conheço por gente) e sempre me dei bem com a área de exatas, achava ter me encontrado nessa profissão. 

Meu lado artístico 

Se tem algo que eu sempre digo, é que todo mundo desenha ou já desenhou na vida! A diferença é que algumas pessoas continuaram treinando desde a infância, e outras deixaram de praticar.

Um rabisco meu, à mão, feito há três anos. Nanquim sobre papel. 

Eu desenho desde muito nova. Comecei a tomar gosto pela coisa com os meus desenhos de observação. A partir disso me afeiçoei aos desenhos em grafite. Meu forte eram as reproduções de grandes artistas (ali eu tentava aprender o que os grandes mestres faziam) e os retratos. 

Desde a sexta série eu já participava de concursos de desenhos no colégio. Aos 12 anos de idade iniciei pintura de óleo em tela. Com 17 anos eu cursava arquitetura. 

Magnólias em aquarela. Veja mais em ycoiado

A faculdade 

Se tem algo que eu posso dizer por experiência própria é que arquitetura não é pra qualquer um! É preciso ter muito apoio, tanto mental, físico e até financeiro pra alguém conseguir se manter na área (quando dizem que de louco todo arquiteto tem um pouco, é verdade! Haha) 

Eu tranquei a faculdade faltando um ano pra me formar (Juro!), e foi uma das melhores decisões que eu tomei na vida. Quando eu tomei essa decisão descobri que minha situação financeira pra continuar a bancar o curso já era precária, eu estava há quatro noites praticamente sem dormir. Andava esgotada, estressada e, acima de tudo, decepcionada com a forma que eu estava levando a minha vida.

Eu já não tinha mais vida social, não me alimentava bem, estava sedentária e sofria uma forte pressão familiar por ter escolhido um curso que “não prestava”. Não tive apoio nenhum até aqui. Pelo contrário. Minha vida até então era lutar contra tudo e todos que tentavam me puxar nessa âncora pesada. Mas minhas forças foram ruindo até eu não conseguir levar mais pra frente.

O que era pra ser um sonho, se tornou meu maior pesadelo. Cheguei ao ponto de me isolar de tudo e todos a fim de tentar reestabelecer minha vida (que obviamente estava fora de controle) mas cheguei num ponto em que eu não conseguia arrumar uma situação que foi a mim imposta: a da impotência de não ser capaz de ser algo/alguém.

O que eu digo e repito mil vezes: por mais que seja uma área técnica e não tão criativa, a faculdade me ajudou e muito a melhorar minha noção de espaço, de perspectiva, enquadramento, proporções, técnicas, espessuras, simetria e tudo o mais que o perfeccionismo me trouxe de bom.

Bem-vinda à vida adulta

Me encontrei numa situação que eu jamais pensei que passaria. Eu, que sempre fui a “certinha” e me dedicava tanto aos estudos. Estava sem dinheiro, sem profissão, sem ter um rumo na vida. Desesperada.

Vida pessoal

Pra minha sorte eu não passei por tudo isso sozinha. Já fazia parte da minha vida a pessoa mais incrível que já conheci na vida, na época namorado, hoje meu marido. 

Quando as coisas foram apertando por aqui eu já estava casada. Já tinha trancado a faculdade, ainda trabalhava como estagiária em um escritório de arquitetura, as contas continuaram chegando e, devido ao que eu recebia na época, passei a trabalhar à noite no shopping pra tentar me sustentar. Você deve estar pensando: “Muita escravidão e pouco dinheiro?” Isso mesmo! Sem falar que eu estava infeliz. Aqui começou a minha jornada tripla.

Os primeiros raminhos em aquarela que eu postei. Daqui em diante a minha intimidade com trabalhos assim foi se tornando o caminho ao que tem me levado para a minha arte atual.

A troca de profissão 

Essa parte é muito difícil e não é algo que eu costumo aconselhar pra quem me pergunta o quê fazer. Eu larguei tudo. Me injuriei. Prezei pela minha felicidade e bem-estar e corri atrás do que eu achava que merecia e era capaz. Porquê eu “não recomendo” cometer essa loucura? Bem, pq não é todo mundo que tem o apoio psicológico e financeiro que eu tive (maridão sempre presente <3). Se não fosse ele me sustentar no começo, nada disso teria sido possível. Todo negócio novo exige muito tempo, investimento e paciência até começar a dar retorno. 

Passei alguns meses com dois empregos fixos e levando a carreira de tatuadora em paralelo. Estudei muuuuuito até começar a ir pra peles de pessoas reais. 

O começo de tudo: minhas caligrafias.

Como me tornei uma tatuadora 

Antes que vocês me perguntem: não é obrigatório ter curso pra ser tatuador. Ninguém te cobra isso. Estudar é algo individual de cada um, faz parte da evolução pessoal do artista. 

Um dos estilos que eu mais gosto de trabalhar, florais e aquarela. Veja mais em ycoiado

Eu escolhi a tatuagem pra viver porquê desenhar era a única coisa que eu sabia fazer e não precisava de um diploma pra conseguir ir em frente. Era o que dava pra fazer no momento. E sabe o pior? É que eu me encontrei 🙂

Uma das minhas criações mais solicitadas no ano passado. Detalhe: eu não repito desenhos. Cada arte é exclusiva para cada cliente minha. Sinto que dessa forma posso evoluir cada vez mais pra oferecer um trabalho único a vocês. Veja mais em ycoiado

Há três anos atrás, em novembro de 2015, comecei estudando por vídeos no YouTube (Pois é!). Depois de um mês de muitas noites sem dormir passei a trabalhar com a máquina em eva, frutas e pele de porco. 

Quando eu resolvi ir para a pele busquei uma tatuadora pra me dar aulas particulares de todos os desenhos artísticos que eu achava que precisava saber, como o Old School e o Pontilhismo. Afinal, eu não tinha um estilo definido, e preferi começar estudando de tudo um pouco. Mas foi em vão. Eu não tive a ajuda da forma que eu necessitava.

Fui atrás de um curso presencial aqui em Curitiba. Não durei um mês rs A minha ânsia de aprender e entender o que eu estava fazendo era muito mais à frente do que o tempo de duração do curso, então também não finalizei.

Fui atrás de colegas bodypierces pra conseguir uma vaga de auxiliar em estúdios de tatuagem, também em vão. Nem me candidatando como secretária ou auxiliar de limpeza consegui algo. Nem que não rolasse salário. Tava feia a coisa pra mim e então eu coloquei na cabeça que eu teria que me esforçar por conta própria. Precisei entender que eu não tinha a opção de não dar certo, eu tinha que fazer dar certo! 

Passei os seis primeiros meses da minha carreira atendendo em casa (quem aqui lembra?! o/). Depois consegui alugar uma sala dentro de um salão de beleza, aonde permaneci por mais seis meses. Com um ano de carreira conseguir alavancar um dinheiro para abrir o meu tão sonhado estúdio, onde atendi por mais um ano até me retirar em licença maternidade, a qual me encontro até agora e fico até o final deste ano de 2018.

Uma das minhas criações nesse período de resguardo. Veja mais em ycoiado

Estilo artístico 

A minha vontade no início de tudo era tatuar animais e flores em preto e branco. Já comecei criando desenhos maiores. Até que eu levei um pitão de um tatuador local, que me aconselhou a começar pelas menores, pra começar a pegar o ritmo. Comecei aqui o meu amor pelo fineline e as tatuagens minimalistas. Fiz muita, mas muita caligrafia!

Passei a sentir uma necessidade de ir aprofundando minhas criações. Inseri as cores no meu portfólio e passei a aumentar a escala de tamanho dos meus desenhos.

Hoje posso dizer que sou apaixonada pelas tatuagens coloridas e sem contorno. Estou em constante evolução e longe de ter algo autoral, mas sei que já encontrei o caminho que eu quero trilhar.

Gratidão

Eu só tenho a agradecer à vocês que continuam me dando todo esse suporte. Que me apoiam e incentivam a ser alguém melhor. Que entendem a correria da agenda, do meu resguardo, da minha metodologia de trabalho tanto em questão de atendimento quanto de criação. E que mesmo comigo já estando onze meses sem atender, continuam aqui, convictos, firmes e fortes e na expectativa pra tudo se normalizar. Agradeço também à todo mundo que lutou essa luta comigo, à quem tem estado presente e principalmente ao meu marido, que acreditou em mim desde o início e foi o maior ponto de luz em meio a toda essa escuridão. Vocês são demais!

Yasmin Coiado

Sobre Yasmin Coiado

Tatuadora - Estúdio Yasmin Coiado
Rua 24 de Maio, 1416, Rebouças.
Curitiba - BR
Fone: (41) 3319.1695

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