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Esofagite eosinofílica

Como em todas as áreas, na Medicina também surgem novidades e não só em tratamentos , mas também novas doenças, isto é,  novos diagnósticos. Não porque antes eles não existiam, mas ainda não tinham sido identificados como uma entidade clínica. Com freqüência pessoas  me indagam da seguinte forma: ”_Alergia a alimentos? Ahhhh, isso não existia na minha época e vivíamos muito bem e saudáveis.” – Pois é, certo e errado. Provavelmente as alergias alimentares eram em menor número e suas conseqüências, quando fatais, relacionadas a outros problemas. Nos últimos 30 anos houve um grande aumento na prevalência das doenças alérgicas e ficaríamos horas aqui discutindo sobre a multipluralidade causal desse aumento. Por outro lado, nas últimas décadas, através dos ensinamentos a nós trazidos pelos ensaios clínicos, pelo rápido , fácil e global acesso às informações passadas quase em tempo real pela internet, nos direciona para que possamos pensar nestes diagnósticos.

Hoje o que rege a boa prática da Medicina e das Especialidades da área da saúde é a chamada Medicina Baseada em Evidências – resultado de ensaios clínicos, de estudos bem conduzidos e controlados por grupo placebo, de metanálises. Vivemos um período de intensa busca pelo conhecimento através de evidências. Por isso fico tão desanimada quando observo condutas sem nenhuma base científica…

Mas enfim… Nosso assunto de hoje é ESOFAGITE EOSINOFÍLICA, uma patologia que foi descrita pela primeira vez em 1993.

Por definição, a Esofagite eosinofílica é uma patologia inflamatória crônica de fundo imuno alérgico que acomete o esôfago (órgão que fica entre a garganta e o estômago).

Pode acometer seja crianças que adultos. Os sintomas costumam ser diferentes em crianças e adultos, pois dependem do grau de inflamação e de enrijecimento do esôfago. Nas crianças se expressa com sintomas muito parecidos com os sintomas de refluxo gastro esofágico, porém não respondem ao tratamento desta patologia. Na criança pode ocorrer desde recusa alimentar, choro importante ao alimentar-se, vômitos, dores abdominais, preferência por alimentos pastosos, mastigação excessiva e necessidade de líquidos para ajudar a engolir os alimentos mais secos. Certamente  isso não ocorre tudo ao mesmo tempo. Já nos adultos, como o esôfago encontra-se mais enrijecido devido a esta inflamação crônica, as dificuldades para engolir, os engasgos, os vômitos e até as impactações alimentares com necessidade de retirada do alimento via endoscópica, são os sintomas mais expressivos.

Essa inflamação do esôfago tem o nome de EOSINOFÍLICA pois, ao contrário de outras inflamações esofágicas, esta tem o predomínio das células inflamatórias que se chamam eosinófilos, células estas que determinam as características imuno-alérgicas desta patologia.

Muito embora a Esofagite eosinofílica possam ser uma manifestação de alergia alimentar, nem todas o são. Contudo, pela possibilidade de ser uma manifestação de alergia alimentar, todas devem ser minuciosamente avaliadas por um Alergologista além do Gastroenterologista na busca dessa causa, na sua identificação ou mesmo na sua exclusão.

O diagnóstico da Esofagite eosinofilica deve ser feito através de Endoscopias digestivas com múltiplas biópsias. Este procedimento, mesmo que invasivo, pode e deve ser realizado mesmo em crianças de baixa idade, para que se possa diagnosticar adequadamente e tratar.

A investigação causal, por ser uma doença imuno alérgica mista, isto é, que mistura os mecanismos imunológicos mediados por IgE e não mediados por IgE , abrange testes que avaliam ambos os mecanismos. São eles: Dosagens séricas de IgE específica , Testes cutâneos (Prick teste) e Teste de contato atópico com alimentos (Patch teste). Vale uma recordada no post “Diagnóstico das Alergias alimentares”. Lembrando sempre que testes positivos não fecham nosso diagnóstico de alergia alimentar, apenas norteiam o próximo passo na investigação que são as dietas de prova e reexposição ao alimento.

Tratamentos consistem em Dietas de exclusão quando identificados os alimentos ao qual a pessoa é alérgica, terapias medicamentosas que incluem sobretudo os corticóides inalatórios (medicações para asma) porém utilizados de forma deglutida e mais recentemente os inibidores de bomba de prótons, isto é, medicamentos usados para tratamento de doença do refluxo gastroesofágico.  As dilatações do esôfago por meio de endoscopia podem ser necessárias naqueles casos em que o esôfago encontra-se muito espessado, como um tubo estreitado e que impossibilita a pessoa de se alimentar. Tais tratamentos devem ser absolutamente individualizados. Pode ser possível o tratamento com apenas dieta ou mesmo associação de métodos para que se possa atingir a melhora esperada. O tratamento sempre será a longo prazo e o acompanhamento médico é essencial.

Ainda sabemos pouco sobre esta nova patologia e temos muitas dúvidas em relação a como essa doença evolui, mas os estudos sérios continuam a todo o vapor.

O que temos certeza é de que para diagnosticar e acompanhar estes pacientes é de fundamental importância a colaboração entre vários profissionais desde os Pediatras, os Clínicos, os Alergistas, os Gastroenterologistas, os Endoscopistas, os Patologistas e os Nutricionistas. Cada um com sua função, cada um com seu empenho e conhecimento para mudar a vida deste paciente para melhor.

Até breve.

Ana Paula Juliani

Sobre Ana Paula Juliani

CRM 13736 – PR
Especialista em Alergia e Imunologica clínica pela ASBAI (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia)
Pediatra pela SBP ( Sociedade Brasileira de Pediatria)
Especialização em Alergia Alimentar na Universidade “La Sapienza”- Roma.
Membro do Comitê de Alergia Alimentar da ASBAI de 2013 a 2017.
Londrina - PR.

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