Arquitetando Estilos

Gestante e tatuadora, uma experiência e tanto!

Gerar um filho, desde a barriga até sua criação, é algo muito particular de cada mulher não é mesmo?! Hoje vim contar pra vocês a minha experiência como tatuadora gestante.

Vou começar láaaa de trás…

Pra quem não sabe, eu tatuo desde 2015. Comecei de baixo como muitos de nós, tatuadores. Tatuei na minha própria casa, atendi numa sala dentro de um salão de beleza e dai passei a correr atrás do meu sonho do estúdio próprio. Sempre sozinha. Não cheguei a atender em estúdios alheios. Inclusive isso é papo pra outra matéria… 

Na metade de 2016 resolvi abrir o meu próprio espaço. Forrei o cofrinho e no final do ano dei o primeiro passo pra um local todinho meu. Mal sabia eu que na virada do ano, em 2017, eu engravidaria. Tinha acabado de investir uma nota num espaço novo. Estava com planos aaaltos.. ia viajar à trabalho, começar a montar uma equipe bacana de atendimento, na minha cabeça que com a maior tranquilidade do mundo. Era o meu ano de evolução. Eis que…

Nesse dia eu tatuei a minha irmã, começamos um projeto de fechamento de braço que, por sinal, ficou incompleto por hora, foi um atendimento de cinco horas seguidas comigo nesse tamanhão ai rs

A grande notícia 

Quando eu descobri que estava grávida meu mundo caiu. Foram três dias pra conseguir assimilar que dali pra frente não seriam mais os MEUS planos, mas sim os NOSSOS. Cancelei tudo o que eu já tinha planejado e precisei replanejar com o pouco tempo que eu tinha, afinal eu já estava de quatro meses quando me dei conta {como vcs podem ver fluxo regular nunca foi o meu forte}.

Aqui eu havia recém-descoberto sobre a gravidez. Estava de quatro meses.

Financeiramente não foi a melhor época, como eu já citei tinha acabado de abrir o estúdio então todo o meu rico e suado dinheirinho estava ali aplicado em “quatro paredes”. Como a gravidez não foi planejada eu não tinha poupança nem uma reserva, pois sequer pensava em planos tão fora da linha assim.

Minha rotina

Já deixo bem claro aqui que essa é a minha história, como eu passei e enfrentei meus problemas. Nenhum deles minimiza problemas que outras mãezinhas passaram. Hoje talvez eu tomasse algumas decisões diferentes. O fato é que a vida segue e temos que fazer o que podemos com o que temos em mãos.

Antes do “estado mãe “, minha vida era pensar em trabalho e apenas isso. Sou muito workaholic, confesso. Eu não tirava tempo pra mim, independente para o que fosse. Lazer, passeios, viagens, cuidar da minha saúde ou até da minha vida pessoal. Nada. Estava sedentária há pelo menos 5 anos e a cada dia estava dormindo pior, comendo mais besteira (quando comia, minhas clientes mais antigas que o digam rs), tomando cada vez mais café e fumando ainda mais cigarro. Aquela receita que eu não indico pra ninguém 😉

Mas pq eu to citando isso tudo? Bem, me corrijam se eu estiver enganada, mas aprendi que tudo o que vc é, foi ou faz influencia na sua gestação. O fato de não estar com a vida em dia impactou diretamente na minha forma de tatuar.

Eu cheguei ao ponto de não conseguir fazer praticamente nada sozinha. Não pudia atender por muito tempo seguido, senão me doía a barriga. Não conseguia me abaixar pra pegar o meu material que eu deixava quase no chão. Precisei subir a minha maca o máximo possível pra poder “encaixar” a barriga entre ela e o mocho. A cada duas horas eu precisava parar pra comer (pense bem hahaha). Precisava de ajuda pra me levantar de cadeiras e sofá, pra subir e descer escadas, pra pegar coisas pesadas, até mesmo pra colaborar com a limpeza do estúdio. E não foi por frescura, boa parte do tempo meu médico me pedia pra que eu ficasse em repouso, essa foi a minha forma de tentar continuar atendendo de uma maneira um pouco mais suave.

Minha última semana de atendimento, aqui eu estava com oito meses.

Eu, gestante

Já estão conseguindo juntar essa bola de neve na cabeça de vocês? Vou dar um empurrãozinho… fugir aos planos, novas metas num momento não tão bom assim, não ter reservas, ter acabado de abrir um negócio próprio e, pra ajudar, ter uma lista com mais de 2.000 pessoas pra responder e (se desse a sorte) atender antes de entrar em licença maternidade. Eu passei por muito estresse! Mesmo evitando ao máximo. Mesmo tendo ajuda das meninas do estúdio na época e contando com a compreensão de (boa parte) das clientes.

Uma das pessoas que mais me ajudou durante a minha gestação. Minha antiga auxiliar e bodypiercer do estúdio, a cmarczak.piercer

Ter tanta gente cobrando retorno num momento em que eu deveria estar focada em como deixar o mundo mais perfeito possível pra chegada do meu filho (pq ser mãe é bem isso né meninas?), lá estava eu enfrentando pepinos, tentando colocar no papel como manter um contrato de aluguel do estúdio se não iria atender durante a licença, saber que iria sair e não conseguiria dar conta de atender à todos, saber que não estava cuidando de mim (de nós) da melhor maneira possível, que eu precisava mudar e era pra ontem. Nem preciso dizer que isso tudo afetou negativamente a minha gestação não é mesmo?!

Histórias à parte

E pra vocês sentirem um pouco de como não foi moleza: teve gente ligando no estúdio pedindo pra ser atendido antes de outros clientes da fila $. Teve gente que levou marido no estúdio pra tentar me convencer de que eu deveria burlar o meu método de atendimento e criação e fazer cópias de outros trabalhos à todo custo, como forma de “me ajudar”. (Nunca imponham o que determinado artista deve ou não fazer okay? Com a nossa experiência nós sabemos qual a melhor forma de atendimento que condiz com a nossa cartela de clientes e com o que funciona pra gente também). Teve cliente que, na boa vontade, trouxe irmã pra fazer tatuagem casada e eu precisei ouvir desaforo por ser nova, estar grávida e ainda ser tatuadora sem formação (como vcs já sabem eu larguei da arquitetura e não me arrependo nadinha). Daí pra pior.

Os riscos

Estresse, correria, pouco tempo pra descansar (afinal, eu precisava juntar dinheiro pra manter o espaço enquanto eu estivesse fora e mais para os gastos do bebê)… foi batata! Quando eu descobri que estava grávida foi quando comecei na fase em que comecei a passar mal. Os enjoos vieram com tudo, já de cara fui internada quatro dias por estar com hiperêmese gravídica, e dai a dor de cabeça só foi aumentando. Logo que eu recebi alta passei a ouvir cada vez mais que meu corpo precisava de repouso (e toda aquela cobrança de 2.000 pessoas atrás de mim, lembram?), se eu não surtei é porquê não parei pra pensar sobre. Apenas fui agindo.

Pouco tempo depois tive um indício de descolamento de placenta, repouso. Com seis meses vimos que eu estava com a placenta baixa (ou placenta prévia, como chamam), repouso novamente. Dessa vez com ordem pra um mês de cama, mas como eu não podia parar assim do nada continuei atendendo. Chegava no estúdio, subia na sala de atendimento e só descia na hora de ir embora. Foi punk!

A partir dos setes meses passei a tomar o tropinal, um remédio que se tornou meu melhor amigo (depois do remédio de enjoo) e servia pra segurar o baby na barriga por mais tempo.

Eu deveria ter reduzido o meu atendimento, mas precisei aumentar $$$ o fluxo no fim das contas. Quando cheguei na metade do oitavo mês eu simplesmente empaquei. Não subia mais escadas nem levantava mais sozinha. Estava tão cansada do meu ritmo de trabalho que o próprio Anthony começou a reclamar, e seus chutes começaram a surgir não como uma brincadeira, mas como um lembrete de que ele estava ali e queria repouso também. Passei a ter contrações de treinamento com dor, fator esse que fugiam do normal esperado pra essa altura da gravidez.

Ritmo de trabalho 

Antes dessa loucura toda eu chegava a atender 10h por dia, numa média de 7 pessoas diárias e estava tudo certo. Éramos apenas eu e o meu marido dando a cara à tapa tentando crescer juntos. Agora, nessa altura do campeonato, passei a atender 3 pessoas por dia e ainda é irreal (o aconselhável pra saúde pra quem trabalha com projetos manuais é a de ficar até quatro horas de uso contínuo, pra se evitar problemas como LER, dores na vista e nas costas etc).

Como eu já estava sedentária não forcei a barra durante a gestação. Então passar horas reclinada sobre a barriga foram muito difíceis pra mim! Não alcançar meus materiais era fichinha perto de ter que tatuar (com toda a concentração e tensão que esse trabalho requer) com muita falta de ar. Pra ajudar, engordei 18 kg. O Anthony é muito “bom de garfo” desde a barriga. Ele nasceu enorme, com 53cm, não tão pesado, com 3,5kg, quando eu estava de 38,5 semanas. Então imaginem só o tamanho que eu fiquei! Ps. Tenho apenas 1,58cm de altura.

Foto de um dia antes do parto, estava com 38,5 semanas.

Licença maternidade 

Parar de trabalhar é a coisa mais difícil que eu já fiz na vida. Fiquei mal por muito tempo. Até entrar na cabeça que aquela vidinha dependeria de mim exclusivamente por seis meses, eu passei por muitos altos e baixos. Que é gratificante você passar por isso e uma oportunidade única. Na minha experiência posso confirmar que depressão pos-parto existe sim! Mas nada é irreversível. Enfim, chegaremos lá mais além.

A questão é que de fato não consegui terminar de atender a todos, hoje já com sete meses de vida do meu filho, fechei o meu estúdio e estou bem. Aprendi a lidar com isso tudo e a estipular prazos pra mim mesma como forma de me recriar.

Meu último dia de atendimento

O parto

Como a minha gravidez foi considerada de risco, meu ginecologista (Dr. Claudinei Londero ,especialista em gravidez de risco, te indico de olhos fechados!!!) me recomendou que fizéssemos cesárea. E assim foi feito. No meu caso foi tranquilíssimo, no próprio hospital eu já estava tomando banho sozinha. Parei de sentir as fisgadas do corte com um mês e meio pós-cirurgia, mas foi só próximo dos seis meses que passei a me sentir mais à vontade pra me reclinar sobre a barriga (posição super importante visto como eu trabalho).

Pós-parto no hospital Santa Cruz.

Meus antigos planos

Minha ideia inicial era de voltar a atender com quatro meses pós-parto, no meu próprio estúdio, num ritmo beeem lento, levando o bebê comigo que ficaria na recepção com uma babá e eu pararia pra amamentar durante os atendimentos. Que ingênua!

  • Mal sabia eu que amamentar seria a segunda coisa mais difícil que eu fiz na vida. Tanto pelas dores, quanto pelo cansaço.. pelo tanto que eu precisei me doar. Fomos nesse ritmo exclusivo de amamentação de 2 em 2 horas inclusive de madrugada até o sexto mês do Anthony {chegou numa altura que ele resolveu largar sozinho. Hoje já não amamento mais. Mas ainda tenho resquícios do cansaço desse tempo todo}.
  • Como também já citei, passei a me sentir mais confortável a partir do quinto mês, também depois da minha previsão de retorno de quatro meses.
  • Não imaginava eu que iria precisar carregar taaantas coisas pro bebê. Se ele ainda fosse levinho… mas atualmente (agora com sete meses) ele já bateu os 10kg!! Não é fácil sair de casa não tendo carteira/carro, dependendo de uber e da boa vontade alheia pra carregar o seu filho com você. Aqui já burlei a minha ideia de levar ele comigo pro estúdio. Além de ter descoberto que, fora isso tudo, não é permitido pela Vigilância Sanitária aqui de Curitiba manter um bebê nesse tipo de ambiente, visto que os espaços eram todos abertos, mesmo que em andares separados.

Quer acompanhar mais sobre a minha vida com o meu baby? Segue aqui: frenchiesandtheguy

E como vocês podem ver tudo o que eu acreditei ser e pensei ter me preparado a tempo, no fim das contas, não casou em nada com a realidade. Foi tanto balde de água fria que hoje, eu e meu marido conseguimos nos organizar e resolvemos que eu tiraria o resto do ano de licença. De ficar com o meu pequeno com certeza não irei me arrepender, ainda mais depois de tantos obstáculos assim.

Não sei vocês, mas eu acredito fortemente que quando algo não é pra ser não tem santo que mude. Não adianta querer forçar que não vai pra frente. (Se você é meu cliente e tem interesse em saber mais detalhes sobre a minha agenda assista ao vídeo).

Em resumo

Pode parecer que essa experiência foi a pior que eu já passei se a gente analisar apenas pelos problemas que eu relatei aqui. Mas a proposta dessa matéria é justamente mostrar pra vocês que nem tudo são flores, nem tudo sai como o planejado, nem tudo é perfeito e pra que tudo aconteça foi necessário muita, mas muita força de vontade minha e de todos à minha volta.

Eu não mudaria nada do jeito como ocorreu. Quando ocorreu. As coisas que eu precisei passar e as medidas que acabei tomando em resposta a isso. Posso dizer que essa é a experiência mais mágica e gratificante da minha vida. Não vejo mais a minha vida sem o meu filho, e agradeço por ele ter me mudado tanto assim. Desde os planos, as formas de ver as coisas, minha forma de ser, agir e pensar. Ser mãe é aprender a ceder, a se doar, a se esforçar ao limite, a se ver intrinsicamente, se entender com um novo eu e a respeitar isso tudo. Se eu recomendo pra vocês? Com toda a certeza. Por amor a gente enfrenta tudo isso e mais um pouco.

Aqui o meu japinha tinha acabado de fazer seis meses.

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Yasmin CoiadoGestante e tatuadora, uma experiência e tanto!

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1 comment

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  • Amanda - 24 de julho de 2018

    Que experiência! Filho mudo tudo mesmo em vários aspectos. Um bj!

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