Arquitetando Estilos

Mito ou verdade? Segunda parte…

Há duas semanas nós falamos sobre “cerveja que dá leite”, “gás que não se mistura”, “colarinho”, e “cerveja quente ou congelada”, lembram?

Hoje é a vez de outros famosos assuntos do mundo cervejeiro, preparados?

Cervejarias que usam água de rios, fontes e nascentes… humm que cheirinho de mito! Sim, mito, mito e mito! Até pouco tempo atrás era muito comum as cervejarias se vangloriarem de estarem próximas de fontes de águas limpas com alguma propriedade fantasmagórica fantástica! Felizmente isso caiu por terra, com o avanço da tecnologia é possível transformar praticamente todo tipo de água em “água cervejeira”, todos os minerais presentes podem ser quantificados: cálcio, magnésio, cloreto, zinco, sódio, etc, vai depender do que o cervejeiro quer para a sua receita. A água, caso você não saiba, compõe entre 85% e 95% do total da composição da cerveja, ela está presente desde o plantio dos insumos, até momentos antes do envase, é ela que limpa a fábrica e ajuda a sanitizar os equipamentos, por exemplo. Estudos apontam que é preciso cinco litros de água para se fazer um litro de cerveja, mesmo a cervejaria sendo das mais eficientes. A sua ressaca do dia seguinte pouco tem a ver com a qualidade da água, amigo (a), provavelmente você bebeu demais e de tão animado que estava acabou esquecendo de ir se reidratando na madruga.

Uma discussão que eu gosto muito é o interminável embate sobre chope e cerveja! É preciso ter um pouco de cuidado sobre esse assunto, os tempos mudaram, a demanda é outra e a tecnologia influencia cada vez mais no resultado final. Antigamente se afirmava com toda propriedade: “chope não é pasteurizado, a garrafa sim” e realmente era verdade. E se hoje eu te disser que, pelo menos no mundo das cervejas artesanais, nenhum dos dois sofre a técnica usada e descoberta por Louis Pasteur (cientista e médico francês que inventou a famosa pasteurização). Atualmente, para manter o frescor e preservar as características primordiais das receitas, alguns fatores são mais importantes que a pasteurização, como por exemplo, transporte e armazenamento. Você acha que é melhor degustar a cerveja armazenada em câmaras frias, ambiente controlado e geladeiras ou aquela que viaja longos caminhos na carroceria de caminhões superlotados sob sol escaldante? A resposta ficou fácil demais. Não posso falar por grandes companhias, mas boto minha mão no fogo pelas nanos e microcervejarias artesanais, o cuidado é outro, os ingredientes idem e os aromas e sabores absolutamente sem comparações.

Uma das maiores gafes cometidas por quem não conhece muito bem o assunto é a famosa comparação entre Pilsen e Lager.

Quase toda semana eu ouço a seguinte frase: “gosto mais das Lager do que das Pilsen, elas são mais fortes”.

Para encurtar esse importante mito: seis e meia dúzia não se referem à mesma quantidade? Pois é! Criou-se, ao longo do tempo, uma verdadeira Torre de Babel com relação a esse assunto, portanto, vamos finalmente desmistificá-lo.

Só existem três famílias cervejeiras, as Ale (êiou), as Lager (láguer) e as Lambic.

Ale e Lager são fermentadas por linhagens específicas de leveduras, controladas e reproduzidas em laboratórios, já as Lambic são fermentadas por diversas leveduras que, no meio cervejeiro, nós chamamos de “selvagens” (bactérias presentes na atmosfera), pra você ter uma noção, até 86 tipos de microorganismos podem ser encontrados numa cerveja do tipo Lambic. Esse assunto é tão bacana e complexo que vamos precisar de mais tempo e foco para conseguirmos entendê-lo de forma clara e objetiva, mas já aviso que certamente falaremos sobre isso num futuro próximo.

Então se Ale e Lager são famílias, onde diabos está a Pilsen? Dentro de cada família existe uma ramificação muito grande de estilos, por exemplo: German Pilsner, Bohemian Pilsener, Dunkel, Oktoberfest, Munich Helles, Standard Lager, American Adjunct Lager, Vienna, Bock e Rauchbier pertencem às Lager. As nossas estimadas Pilsen (errôneamente classificadas), Skol, Brahma, Antarctica e Kaiser são cervejas no estilo American Adjunct Lager (ou North American Adjunct), já a Heineken é uma Standard American Lager (ou Euro Lager).

IPA, Pale Ale, Barley Wine, Stout, Old Ale, Blond Ale, Tripel, Quadrupel, Brown Ale, Saison, Weissbier e Porter são estilos pertencentes à família Ale.

Nem toda Lager é suave e docinha, nem toda Ale é forte, encorpada e complexa. Isso é muito relativo e, como costumo dizer, cada paladar é único e só você sabe definir o que é bom ou ruim, forte e suave, doce e amargo.

Lembre-se: Lager é família, Pilsen é estilo. Aí está a importância de se ter alguém qualificado para lhe ajudar a escolher a cerveja que melhor irá se adaptar ao seu paladar.

Pra finalizar, uma última desmistificação: não foram os alemães que inventaram a bebida mais consumida do mundo, eles tiveram imensurável responsabilidade e influência no que bebemos hoje, mas a cerveja foi inventada acidentalmente muito antes e lapidada ao longo da história por diferentes povos e culturas. O primeiro registro sobre uma bebida fermentada de grãos e cereais aconteceu no período Neolítico (mais conhecido como Idade da Pedra), na Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, mais precisamente onde hoje ficam Iraque e Kwait, e adivinha quem acidentalmente a inventou? Vocês, mulheres maravilhosas!

Acredite, a mulher teve papel fundamental na história e na evolução da cerveja, não é à toa que algumas das maiores e melhores referências no assunto hoje no Brasil e no mundo são pessoas do gênero feminino. Outro assunto que abordaremos em breve.

Tanta coisa gostosa pra contar pra vocês que eu queria ficar aqui escrevendo sem parar, mas por hoje é só, pessoal.

Espero que tenham gostado da leitura, me coloco à disposição para qualquer eventual dúvida ou esclarecimento, é sempre um prazer falar sobre cerveja com pessoas que gostam desse assunto tão vasto e cheio de complexidade.

Anderson Cesari

Sobre Anderson Cesari

Publicitário, Empresário e Sommelier de Cervejas
contato: (45) 9993-3600
Cascavel - PR

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