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É possível prevenir as alergias alimentares?

Com o aumento notoriamente relevante dos diagnósticos de alergias alimentares, não somente a população leiga se questiona sobre o por quê disso e se existe algo para deter esse aumento desenfreado. Assunto extensamente estudado nas grandes universidades de pesquisa de todo o mundo , o que produz um grande volume de publicações em revistas de relevância médica.

Hoje trarei para vocês as mais recentes conclusões sobre estes estudos.

Conversaremos sobre a PREVENÇÃO PRIMÁRIA, isto é, se existe algo a se fazer ANTES DA SENSIBILIZAÇÃO ALIMENTAR.

Pais de crianças com alergia alimentar são os primeiros a nos questionar sobre a possibilidade de alguma intervenção que possa talvez prevenir essas alergias no seu próximo filho.

A ciência ainda não nos dá uma resposta sobre uma estratégia única que possa prevenir não só as alergias alimentares ,mas alergias como um todo.

As alergias são doenças multifatoriais e esses fatores se inter-relacionam.

A ciência nos ensina que existem algumas coisas que aumentam o risco das alergias portanto devemos evitar, apesar de nem sempre ser possível. Mas a ciência também nos ensina que existem algumas coisas que ajudam, ou seja, que favorecem a tolerância aos alimentos.

Devemos lembrar que diversos fatores ligados ao alimento, à genética familiar, ao ambiente, à microbiota, ao sistema imune, interagem para o desenvolvimento ou não de alergia alimentar.

Alguns fatores que AUMENTAM O RISCO DE ALERGIAS:

  • Parto cesáreo (menor colonização do recém nascido por bactérias “do bem” ).
  • Uso freqüente de antibióticos no primeiro ano de vida.
  • Uso de fórmulas de leite de vaca no berçário  (deveria ser prática restrita a prescrição médica).
  • Tabagismo materno.

Devemos focar em BOAS PRÁTICAS que promovem saúde e a mais evidente é o ALEITAMENTO MATERNO. Existem inúmeros benefícios. Em relação a alergia, não foi comprovada a prevenção de alergia alimentar, porém, estudos mostram benefícios no retardo e prevenção de dermatite atópica.

Mesmo que não tenha sido comprovado estatisticamente  a prevenção para a alergia alimentar, recomenda-se  o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de idade.

Apesar de ideal, nem todas as mães têm esse privilégio Divino que é conseguir amamentar seu filho exclusivamente até os 6 meses, quissá até os 2 anos como sugere a Sociedade Brasileira de Pediatria.

No caso de bebês irmãos de crianças alérgicas, portanto com maior risco de desenvolverem eles também alergias e que não dispõem do leite materno (total ou parcialmente), atualmente se orienta o uso de fórmulas hidrolisadas. Todavia seu potencial de prevenção ainda não está tão claro do ponto de vista científico. A indicação dessas fórmulas deve ser individualizada.

Alguns fatores que NÃO ajudam a diminuir o risco de desenvolver alergia:

  • Dieta materna na gestação e na amamentação. Já há alguns anos temos essa evidência muito clara através de inúmeros estudos. Além de dietas restritivas não diminuírem o risco de alergias no bebê, o risco de desnutrição materna é evidente.
  • Retardar a introdução dos alimentos mais alergizantes à dieta dos bebês – Dispomos de fortíssimas evidências de que essa prática NÃO diminui o risco. Estudos mais arrojados e recentes sugerem até mesmo que retardar a introdução alimentar, aumenta o risco de novas sensibilizações, portanto favorece o desenvolvimento de alergias alimentares. O ideal? Aleitamento materno exclusivo até os 6 meses e então introdução de todos os alimentos sólidos, inclusive os mais alergênicos.

E quando estamos com uma criança já com o diagnóstico de uma alergia alimentar, por exemplo, um bebê com APLV (alergia à proteína do leite de vaca) que deve começar a introdução dos sólidos. Como fazer? Pois então, a regra é a mesma, introduzir TODOS os alimentos à dieta desta criança com exceção daquele ao qual ela é alérgica. Jamais postergar a introdução de novos alimentos por ela já ter uma alergia alimentar. Isso, de acordo com os estudos, só vai favorecer a aquisição de novas alergias.

No passado essa orientação de postergar a introdução de novos alimentos a crianças sabidamente alérgicas já foi regra e se seu filho teve APLV nos idos do início dos anos 2000 era essa a orientação. Hoje mudou. Estávamos equivocados. Isso não me deixa desconcertada e sim feliz, pois estudos em alergia alimentar são incessantes e existe grande investimento nesta área. Quem se beneficia dessa produção científica enorme são nossas crianças.

E ainda temos muito a aprender. O que dizer sobre os Probióticos?

Apesar das evidências atuais em humanos não serem suficientes para comprovar o papel dos probióticos na prevenção de doenças alérgicas a não ser o eczema, essas evidências também não excluem a possibilidade de sua utilização. No entanto, muitos estudos ainda são necessários para examinar este papel em alergias alimentares.

Os resultados com a utilização de microrganismos probióticos são promissores, mas seu uso rotineiro dependerá dos resultados de novos estudos. Acredito termos essa resposta nos próximos anos.

Queria tanto ter uma fórmula mágica, uma solução pontual, mas as únicas conclusões claras até o momento se deparam com a célebre e manjada frase: Menos é mais. Quanto mais fisiológico, quanto mais natural, promoveremos uma vida mais saudável às nossas crianças e a nós mesmos.

Ana Paula Juliani

Sobre Ana Paula Juliani

CRM 13736 – PR
Especialista em Alergia e Imunologica clínica pela ASBAI (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia)
Pediatra pela SBP ( Sociedade Brasileira de Pediatria)
Especialização em Alergia Alimentar na Universidade “La Sapienza”- Roma.
Membro do Comitê de Alergia Alimentar da ASBAI de 2013 a 2017.
Londrina - PR.

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